
Há filmes que nos transportam para outros mundos, há filmes que nos mostram quem somos. Princesa Mononoke de 1997 dirigido e escrito por Hayao Myiazki e produzido pelo o Ghibli Studio faz as duas coisas de uma forma que quase nos tira o chão. Não é apenas uma animação magnífica, é uma experiência visceral, uma viagem ao centro do ódio e da ternura que coexistem em cada um de nós.
Vou começar com o centro de todo o enredo, A floresta dos deuses , que no longa de Miyazaki não é só cenário: é um organismo vivo, habitado por deuses antigos e ferida pela ganância dos homens. Mas o que a envenena de verdade não é o ferro das enxadas, nem o progresso, nem as armas: é o ódio, esse sentimento viscoso, capaz de transformar bestas sagradas em demónios, de cegar humanos e espíritos, de nos fazer esquecer quem fomos, quem somos. A maldição que Ashitaka carrega para além de fio conductor da história é o retrato disso: cada vez que cede à raiva, ganha força, mas perde-se um pouco mais. É um preço universal. Todos carregamos um bocadinho dessa marca.
Miyazaki não nos oferece respostas fáceis. Não há vilões de verdade. Lady Eboshi, com toda a sua dureza, tenta proteger os desamparados e os seus compatriotas . San, a lobo-humana, odeia o que os homens fizeram com floresta, mas ama esse local que chama de casa com a mesma intensidade e como todos está preparada para defender o seu lar. Ninguém está completamente certo ou errado. A tragédia aqui é colectiva, e o ódio, esse é o único inimigo comum. Ashitaka e a sua maldição também aqui simbolizam essa tragédia: quanto mais ele usa o poder que o ódio concede, mais se aproxima da morte. Os seus atos de compaixão contrastam com as ações dos outros, e nos mostra que o ódio apenas gera mais ódio, enquanto a empatia é a única génese de cura.
O mesmo caminha entre mundos, com “olhos não turvados pelo ódio”. Como dito, tenta ouvir, tenta compreender. É talvez a personagem mais corajosa do cinema de Miyazaki, porque se recusa a ceder à raiva, mesmo quando tudo lhe diz para o fazer. A sua missão é de redenção, mas é também a nossa: olhar para a outra face, perceber o medo e o amor que movem quem nos parece inimigo.
“ Life is suffering. It is hard. The World is cursed. But still, you find reasons to keep living.”
E toda essa complexidade emocional encontra expressão numa beleza visual absoluta conseguida pelo o estúdio de animação japonês. Cada folha, cada espírito, cada gota de sangue é desenhada com uma reverência rara. As cenas violentas são cruas e frequentes: cabeças cortadas, batalhas selvagens reforçam a mensagem de que o ódio amplifica a destruição e acelera a decadência dos personagens, sem oferecer uma glória ou redenção imediata. E a música de Joe Hisaishi é um show à parte, faz-nos sentir o coração da floresta a bater, lento, ferido, mas persistente.
Princesa Mononoke é uma resposta à natureza destrutiva do ódio. Mostra-nos que a vingança nunca traz paz e que a raiva nunca irá curar feridas. Mas também sussurra que, se ouvirmos com atenção, ainda há esperança, porque mesmo depois da guerra, quando tudo parece perdido, a vida teima sempre em recomeçar. E talvez, quem sabe, ainda possamos aprender a ver com olhos não turvados. A amar, mesmo no meio do caos. Este filme não é apenas para ver; é para sentir, para pensar, para levar connosco. Tal como a floresta, só sobrevive quem cuida. E só se cura quem escolhe não odiar.
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