Uma contadora de histórias numa sonoridade de melancolia nostálgica

Primeiro, há que se salientar que não era o maior dos fãs de Taylor (algo que já mudou), a não ser raras exceções de um ou outro single que parava para ouvir, a cantora norte americana nunca foi dos meus maiores alicerces. Isso acabou por mudar com o álbum folklore, que não deixou dúvidas que uma nova Taylor Swift chegou. Uma Taylor mais madura com música sóbria, não tivesse ela, agora, mais de 30 anos e uma carreira solidificada ao longo de uma década, deixando de lado a quase personificação de princesa do mundo pop perdida pelo folclore das revistas cor-de-rosa e das redes sociais. Aqui não é mais a vítima de um amor adolescente infríavel.

Agora, o folklore é outro – e é bastante mais interessante assim, ela não se esquece de todas essas deceções amorosas que tanto eram comentadas pelo mundo das redes sociais e que pareciam um arco narrativo de algum filme melo dramático. Não se esquece desses altos e baixos, mas sim os revê, agora com um amadurecimento a beirar o extraordinário (Isto se pensarmos que meses antes do lançamento, Taylor tinha lançado “lover”) A cantora e songwriter abraça o seu lado de contadora de histórias, conta histórias do que viveu, de outros pontos de vista, do que ouviu ou até do que imaginou e  mesmo este álbum ter nascido de uma provável narrativa ficcionada, este oitavo disco sente-se mais honesto do que todos os outros trabalhos da cantautora. Torna-se palpável, mais real, mais… mais imperfeito e destrutivo…de uma forma positiva claro.

Este disco é feito de uma matéria diferente dos demais. É uma Taylor com visuais rústicos e paisagens bucólicas em preto e branco com alguns tons de verdes húmidos e castanhos aconchegantes, uma mulher mais melancólica, nostálgica, quase espectral, como se a mesma procurasse nos seus fantasmas a sua nova forma artística. 

Um dos aspetos que, pessoalmente, me incomoda no universo pop jovial é que as canções parecem gravitar todas em torno de paixonetas sem sal ou romances mal resolvidos. Swift passou a última década a fazê-lo e continuará a fazê-lo. E aqui não fugiu a essa tentação. Mas neste fá-lo de uma maneira consideravelmente mais séria, mais crua e mais melancólica. Aqui já não vemos qualquer tentativa de vingança, apenas aceitação. Aceitação de que a vida prosseguiu e não adianta cantar aos quatro ventos “We neve rever getting back togehter” uma vez mais.

Este álbum se sente como uma lufada de ar fresco depois de quase uma década a tentar imenso (e a deixar transparecer que está a tentar imenso) em se tornar o topo das tabelas e manter sua posição como uma pérola no pop global (e enquanto isso, se perdia nas polêmicas dos media e utilizava a música para ter última palavra). 

É liberatório, ver a mesma a se libertar das convenções sufocantes da indústria da música, do marketing e de exaustivas campanhas promocionais que começam meses antes que os álbuns sejam lançados, e que por essa razão, não deixam espaço para os músicos de transmitir o que estão a sentir no momento. E Taylor mostra que não é necessário isso, visto que este é o album com maior sucesso da carreira da norte americana,

Apresenta-se com liberdade para dizer o que acha que precisa ser dito, para dizer as palavras que quer dizer e para não ser a pessoa que a sociedade espera que seja. A simples liberdade de ser apenas e só Taylor.

Para além do que já disse, este álbum é intrigante. Ele não se entrega às expectativas de ser necessariamente “isto ou aquilo”. É uma firmeza das suas próprias determinações, ela viaja por um caminho sinuosos cercado por histórias, memórias, referências e melodias que a artista utiliza para cumprir com maestria a forma e o conteúdo do disco. Relembra a infância, a juventude e todo o processo de perda de inocência e alcance da maturidade, sem nunca esquecer o que significa ser mulher. Canta sobre histórias que conhece e sobre personagens que agora passou a conhecer, sobre mitos, memórias, realidades alternativas e, claro, epifanias. Registra a sua identidade, sua cultura, e assim, constrói o seu próprio ‘folklore’.

As músicas deste disco têm a capacidade rara de nos tornar nostálgicos por vivências que não são nossas, com saudades do que nunca vivemos, porque as memórias são connosco partilhadas, mas não nos pertencem. E afinal, mesmo que isso se tenha perdido, por causa da popularidade de “músicas” do estilo funk ou a mesma a se tornar cada vez mais comercial, a música é mesmo isso: uma arte de partilha e recriação. De sensações e sentimentos e tudo o que vagueia entre as duas.

Ao longo das dezassete músicas que constituem o álbum “folklore” é isto que a Taylor aborda. São essas as suas histórias que conta.

Tudo em Folklore é verosimilhante, ou seja, podemos transportar em cada história contada para o nosso dia a dia e iremos encontrar vários pontos onde conectar e onde sejamos refletidos. Desde a primeira música do álbum, a mesma trás um dos temas principais e presente em quase, se não em todos as faixas do disco. E se. E se fizéssemos aquilo e não isto. E se tivéssemos seguido outro caminho… E se. Mesmo que ao saber que a paixão descrita não foi, a mesma viaja no seu imaginário e pergunta-se a si mesma e se esse alguém fosse o the 1

Faixa 6 Taylor cria uma persona que duvida de si mesma quando apaixonada e que se revê no objeto mirroball, ou seja, despedaçada e dividida. Em invisible strings, canta-nos com saudosismo e romanticismo, um amor ainda possível, ainda não esgotado. Em peace, retrata uma personagem racional, autoconsciente e ainda disposta a vivenciar a completude que é o amor.

Podem se ver refletidos no eu lírico da envolvente de this is me trying, onde a mesma mostra a procura de uma recuperação e das tentativas falhas de quando apenas procuramos tentar uma vez mais, e uma vez mais. Ou num relacionamento acabado, onde a mesma personifica uma personagem que etá nervosa e arrependida com o amor, na faixa illicit affairs.Temos uma personagem intensa mesmo que conformada e quase mitológica que canta junto de um piano em hoax. Em seven trás uma música com sons de conto de folclore de um amor passado, mas que é lembrado ainda com carinho. E ainda em exile, o expoente máximo do álbum e com a participação de Bom Iver, onde os dois vestem os papéis, de um casal que está próximo do seu fim. E as histórias não param por aí.

Em epiphany, faz-nos viajar numa história mítica e narcótica de uma enfermeira durante a guerra. Na canção bónus the lakes, usa esse “lake” para contar uma paixão em tons melancólicos. Em the last great american dinasty conta a história da sua casa e da antiga dona, Rebekah Harkness. Na faixa my tears ricochet, a mesma, mostra quase como uma conversa com uma paixão passada e faz-nos sentir a dor que daí veio. Também temos mad woman, onde a mesma, quase que em primeira pessoa, conta a história de uma mulher aparenta estar instável aos olhos das pessoas à volta dela, porque a mesma, limitou-se a apenas responder às provocações aferidas a ela (parece quase um seguimento do álbum reputation,).

Por fim, conta-nos a história de um trio amoroso de personagens inventadas pela mesma. Cardigan é um dos fragmentos dessa história, sendo as outras, as que ainda faltam falar, August e Betty. A história é fácil em primeiro instante. Betty e James, namoravam durante o secundário, só que no verão do ano em que se passa a história, James trai Betty com Augustine. Nessas canções Swift conta as visões das três inerentes desse triângulo, deixando a hsitória do mesmo mais profunda. desde cardigan, onde a personagem Betty, em tons melancólicos, relata a lembrança do seu relacionamento passado com James e de como a mesma se sentia “A old cardigan again/under someone’s bed” devido a traição de James. Em August, Augustine, fala em tom nostálgico, das memórias desse amor de verão e de como se sentiu magoada pela sua paixão James a enganou, “So much for summer love, and saying ‘us’ ’cause you weren’t mine to lose” e por fim betty que é a visão de James em relação a tudo isto, onde o mesmo, em estilo de carta, deixa a sua última palavra para Betty onde mostra arrependimento pelo o que fez, e onde pergunta se Betty ainda o quer depois de tudo.

Podes te sentir conectado com qualquer uma. Ou até mesmo com todas elas. É isto que a Taylor foi capaz de fazer.

Isso porque não há superficialidades preguiçosas nos amores do folklore de Taylor Swift. Com um realismo suave e gentil e imperfeito, estas histórias e paixões relembram-nos que mesmo as relações mais maduras ainda são complexas, acompanhadas de arrependimentos, desencontros, tentativas e deceções. As mais saudáveis também são permeadas por (quebra de) expectativas, perdões, esperanças e, às vezes, até mesmo pontos finais – ou seja, exatamente como a vida real.

Experienciar folklore é resultado de uma alquimia de emoções. Entre as 17 faixas, encontramos um pouco de cada aspeto da experiência que a artista adquiriu nos últimos anos e sentimos frio na barriga vindo da imprevisibilidade do crescimento, do autoconhecimento, da descoberta de um novo lugar, novas pessoas ou novos pontos de vista e novos sentimentos, uma nostalgia inalcançável do que vivemos ou uma melancolia do que podia ter sido. Mas no fim, graças há genialidade da artista, sentimo-nos confortáveis e acolhidos. Sabemos que estamos acompanhados por alguém que reconhece as nossas fraquezas e complexidades que vêm no tratado de ser um ser humano e, talvez o mais importante: descreve-as como ninguém.

No futuro, quando me perguntarem (se é que vão) a que soa uma melancolia nostálgica, já sei a resposta. Folklore.