Não sei como voltei ao hotel naquela noite. A chuva, sim — lembro-me dela, Lembro-me da chuva e talvez de uma ponte cheia de estranhos que se apressavam para não perder o último comboio. Eu fiquei para trás, como sempre. Também havia copos, claro. Ha sempre copos. O bourbon, a cerveja, qualquer coisa que queimasse o bastante para calar a memória por alguns minutos.
Deitei-me na cama sem forças para despir o vestido. O tecido húmido colava-se à pele, como se também ele se recusasse a largar-me. No espelho do quarto, rachado no canto direito, a maquilhagem borrada transformava-me em uma pessoa estranha, num rosto que não reconhecia. Talvez fosse isso o que sempre fui: um desfile de figuras que não sabiam permanecer. A mulher do palco, a mulher do “lar”, a mulher de um casamento falhado. Nenhuma delas era eu. Nunca fui eu.
Pensei no Porto. Pensei em regressar, como se a cidade pudesse ser um remédio, como se as ruas velhas ainda guardassem a cura para o que perdi. Mas sabia — sempre soube — que a solidão não obedece a fronteiras. Viaja connosco, embala-se na mala, fala todas as línguas e estende-se em cada cama ocupada pelo o meu corpo cansado
A chuva continuava lá fora, insistente, como uma sentença sem fim. E eu, entre copos e fragmentos de memória, encontrei um consolo estranho: chove igual em todas as cidades, em todas as línguas, sobre todos os erros. Talvez não esteja tão só quanto penso. Talvez sejamos apenas variações de um mesmo silêncio.
Fechei os olhos. Não pedi perdão. Apenas desejei que a chuva fosse mais alta do que eu, suficiente para me substituir.
Entro no quarto e a primeira coisa que sinto é o cheiro — não sei se da madeira húmida, do pó entranhado nos móveis, ou apenas da memória. É um cheiro que não envelhece, que se mantém preso às paredes como se fosse parte da tinta.
A cama continua no mesmo sítio, contra a parede, o colchão ligeiramente afundado no meio, como se tivesse guardado o peso de quem já não está. Sobre a mesa de cabeceira ainda repousa um candeeiro antigo, com a lâmpada baça, e um livro “ A Room of One’s Own” fechado e com uma sauve poeira em cim, e a olhar para ele tenho a sensação que nunca mais será aberto nunca mais será aberto. Tudo permanece como se o tempo tivesse parado no instante exato em que ele saiu pela porta.
Ele — o de agora — já está deitado, descalço, com a camisa aberta, como se o quarto lhe pertencesse. Mas não pertence. A ninguém pertence.
— Achas estranho eu querer ficar aqui? — pergunta, virando-se para mim. Eu sei que é muito antigo e com o dinheiro…
Corto-lhe — Não é estranho. — digo, sem pensar. — Só não é teu.
Ele sorri, como se tivesse entendido alguma coisa. Mas sei que não.
As cortinas deixam passar a luz em fatias estreitas, recortadas, como se o tempo só entrasse por frestas. No chão, a madeira estala sob o meu peso, como se protestasse contra a presença de mais alguém. Sentada na cama, sinto o colchão ceder; o afundamento antigo mistura-se com o presente, e é nesse espaço invisível que fico, imóvel, como se o quarto fosse menos um lugar e mais um espelho.
Sobre a parede, há ainda a sombra de um quadro retirado. Consigo ver a marca mais clara, o retângulo de memória, a ausência moldada em como se a cama fosse de gesso. Nada se move ali. Nada mudou.
— Gostava de saber o que pensas quando ficas assim — insiste ele, quase a sussurrar.
— Não penso. Só voltas.
— Volto para onde?
Não respondo.
Ele olha-me como quem olha um sonho. Eu olho-o como quem olha uma lembrança. E nesse desencontro não existe futuro, apenas ecos.
A roupa dele está espalhada pela cadeira que já foi dele — do outro, do primeiro. Matteo ocupa o espaço como se o pudesse salvar, como se o corpo bastasse para reescrever a memória. Mas o quarto resiste.
O quarto é um palco em que já decorreu a peça mais importante da minha vida, e todos os outros atores parecem sempre deslocados.
— Devias deitar-te — diz, batendo com a palma no colchão ao lado.
Mas não me mexo. O colchão afunda, sim, mas não me engole. E talvez seja isso o pior: o quarto não pertence a nenhum de nós. É uma cápsula, um lugar suspenso, um eco do que deixei.
E eu estou presa dentro dele.
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